O dia no colégio terminou mais solitário do que nunca. Koji lhe evitava, e ele evitava os amigos de ambos. Voltou para casa caminhando, e chegou com as pernas doídas. Era geralmente Koji quem o acompanhava, na ida e no retorno, o levando em pé na roda traseira da bicicleta, conversando sobre tudo.
A luz da sala estava acesa. Seus pais certamente estavam em casa. Poderia esperar que estivessem ansiosos por uma conversa, ou seu pai lhe aguardava com o cinto em mãos? O que Kazuo ouvira rispidamente? Gostaria de falar com Kazuo, mas o número de sua casa ficara gravado no celular dele quando ligou para a haha, apenas. E não tinha seu número.
- Baka. - Hayato.
Não havia outro modo. Pegou a chave escondida no terceiro vaso das violetas de sua mãe, girou a chave e entrou, trancou a porta novamente e descalçou-se.
- Tadaima! - anunciou.
A mãe passou de um extremo da cozinha ao outro, ansiosa para ver o filho com quem estava desapontada. Hayato notou que ela - nunca antes distante do filho único por um dia - olhou no máximo para seus pés de meias, sem coragem de encarar alguém como ele. O pai não tivera qualquer reação parecida com a da mãe, e tampouco diferente. Se não o ouvira não o olhava, e se não o olhava não poderia sentir algo. Mas Hayato sabia ser o contrário.
Preferiu não insistir e foi direto para o quarto certo de ter sido notado por ambos. Estavam tão irritados a ponto de ignorar sua existência? Pensavam que atitude tomar a respeito, ou ignorá-lo era a atitude que tomavam para corrigir? Sua haha não o olhava! Quem era Oono Hayato agora? Alguém sem amigos, ou familiares? Qual lugar pertencia à Oono Hayato… O que faria? Ainda poderia usar o nome de seus avós e ascendentes?
Teve vontade de correr para sempre, sem saber para onde. Apenas correr, para não estar ali. Começou a estudar o material que tinha em casa para distrair-se, mas não estava concentrado como de costume. A haha não lhe trouxera um suco, como habitualmente, e menos ainda cogitou lhe chamar para o jantar. Estranhando o ritmo da casa desceu e notou que já se alimentavam. Sentou-se.
- Itadakimasu, haha, chichi! - Hayato.
O pai levantou-se contendo-se para não lançar a mesa ao teto, notou apreensivo. Viu-o subir e bater a porta, para não mais sair até a chegada do dia seguinte. Baixou os olhos, precisava falar com alguém.
- Summimasen, haha. Não quis ser um desapontamento para haha-san, ou chichi-san.
- Hayato é grande e inteligente, entende as coisas. Meninos se tornam rapazes e as meninas, mulheres. Um deve juntar-se e não o contrário. Chichi está decepcionado com seu filho Hayato, e haha está magoada com Hayato. Haha sente… como se houvesse dado à luz a um menino quebrado, um menino que não sabe que é menino. Sente que deveria ter chamado Hayato-kun de Hayako, e. colocado vestidos para encantar os rapazes…
Ela o olhava de olhos úmidos do choro dos últimos dias. Sem real intenção de ser cruel, Hayato sentia cada palavra lhe perfurar, mesmo quando ela tentava sorrir - desastrosamente. Então desviava o olhar para uma parede qualquer.
- Summimasen, haha… Acredite, Hayato não quis que tudo isso acontecesse. Hayato queria falar antes em casa…
- Chichi está decepcionado… Insisti para que seu filho estudasse invés de esforçar-se nos esportes. Eu deveria ter deixado-o criar seu filho. Acredito que seu pai não tem mais filhos. O homem com quem Hayato ficou…
- Haha, não fiquei com Kazuo-chan. Ele me abrigou quando me embriaguei e cai na rua. Dormi no sofá, eu juro, e ele em seu quarto! Não tocou-me, juro!
Ela levantou-se com a mão erguida. Cansada de desculpas, cansada da tensão de três dias.
- Não engana-me, Hayato-kun. Vejo o mundo há mais tempo do que você. Se deixou ser seduzido por este homem. Levou meu menino, e deixou um Hayato-kohai no lugar.
Hayato afastou-se para o lado contrário daquela mulher que o teve nos braços desde sempre. Correu escada acima, e no banheiro do quarto vomitou o jantar. Não era o que queria. Era uma pessoa terrível, percebeu, porque não estimou o sentimento daqueles ao seu redor. Agora sua oka-san derramava as lágrimas que ele ali colocou.
- Kazuo-chan, o que devo fazer?
No dia seguinte Hayato não fora acordado pela manhã, como hábito de seu pai, ou convocado ao café pela mãe. Sem atrasos optou por não tomar o café da manhã. O tempo frio não lhe intimidou mesmo com o casaco aberto, a caminhada seria longa.
A bola de futebol quase o acertou, e o garoto que chutou-a desculpou-se ao passar correndo. Como poderiam estar tão alegres quando seu sekai desmoronava?
- Hai! - respondeu ao garoto.
A aula foi tediosa e odiada. O professor nunca lhe gostara - poderia apostar - e a matéria nunca lhe agradara. O segundo tempo foi educação física e pode jogar um pouco, para se distrair. Mas seus passes de basquete tão errados o tiraram do time, adversário de Koji.
- Hayato-kun, qual o problema hoje? Costuma jogar tão bem…
- Hai! Nada preocupante, professora. Estou apenas um pouco distraído hoje. - Hayato.
- Espero que esteja melhor em nossa próxima aula. Se precisar de alguém pra conversar, basta que me busque.
- Hai.
A professora afastou-se com o apito aos lábios, e no próximo sopro Hayato notou a forte dor de cabeça que tinha. Levantou-se para o vestiário. Certamente uma chuveirada ajudaria a relaxar, e naquele momento era o único garoto ali, caso os outros meninos o estranhassem.
Deixou-se ficar sob a água quente por um bom tempo, e tentava lembrar o exato momento em que vira Kazuo pela primeira vez como um modo de encontrá-lo. Qual era a cidade que fazia feira de alimentos no domingo? Talvez fosse capaz de encontrar no site estadual.
Terminada a aula retornou à sala para pegar o dinheiro do lanche, já que não havia o que levar pela manhã. Era o pouco que Kazuo lhe deixara e encarou a fila. Demorou um pouco, mas pegou tudo o que queria, lembrando-se de Kazuo ao pegar uma fatia de melão. Depois de pagar, entretanto, percebeu não ter lugar para si no refeitório. Seus amigos estavam de um lado e gostaria de ir para o oposto, mas todas as mesas estavam ocupadas, como sempre. Caminhou devagar, esperando que alguém finalmente terminasse e não ficasse de papo com o próprio grupo.
- Hayato-chan! Hayato-chan, koko ni! - Miyoshi.
- Hai, Miyoshi-chan.
A amiga parou de acenar apenas quando ele finalmente se aproximou. Guardava o lugar de frente para Koji, o mesmo de sempre.
- Ohayo. - Hayato.
- Tsuitachi. - Koji.
- Uwa. Que frios… O que aconteceu com vocês? São amigos para tudo!
- Nanimonai!
Koji levantou-se e se retirou rispidamente, deixando Hayato com a responsabilidade de solucionar juntos com os colegas, tentou sorrir.
- Nanimonai! Koji-san e Hayato discutiram, mas ainda são amigos. - Hayato.
- Koji-san?
- Koji-chan!
- Por que discutiram? Koji pareceu bem irritado com Hayato-chan…
- Hai.
Hayato prosseguiu com seu almoço silencioso, mesmo com os amigos que ainda atualizavam os acontecimentos do final de semana. Miyoshi ainda estava indecisa sobre qual faculdade cursar, o que transformara o almoço em família de domingo em uma grande confusão uma vez que sua mãe queria a melhor e o seu pai a mais próxima.
- Hayato. Hayato-chan, o sinal já tocou. Vamos logo, ou teremos falta. - Miyoshi.
- Hai!
- Hayato-chan, sente-se bem? Está desligado hoje.
- Minha cabeça dói um pouco. Vou à enfermaria e para casa.
- Hayato-chan…
Ele pegou o outro corredor para chegar à sala de enfermagem da escola, e segurou-se no armário repentinamente, a cabeça doía com mais força agora. Sentiu seu braço ser seguro com firmeza, com a vista momentaneamente embaçada.
- Koji-san! - Hayato.
- Miyoshi-chan disse que não sentia-se bem.- Koji.
- Estou bem, apenas dores de cabeça. Apenas não me alimentei direito esses dias.
Koji soltou-o ao perceber que poderia firmar-se de pé sem problema algum.
- O que falou era sério?
- Hai.
Hayato não achou boa ideia encarar seu amigo e baixou os olhos.
- Hayato-kohai, baka! - Koji.
- Hai!
- Vou ligar para sua casa, para seus pais virem lhe buscar.
- De wanai! Eles… não falam comigo desde que voltei para casa. Então… eles não virão me buscar, possivelmente, gomen…
- Hai!
Koji deixou-o, como fizeram os pais e Kazuo, e Hayato prosseguiu até a porta onde foi prontamente atendido. Lhe deram um comprimido e vitamina c, já que chegava a época fria. Por fim foi liberado após passar na sala apenas pra pegar o material e guardá-lo no armário, não que fosse muito. Contornou a primeira esquina de cabeça baixa, agora era o estômago que não se mostrava bem.
- Oi! Hayato-chan! - Koji.
De bicicleta o amigo o seguia do portão da escola, parou um momento ao lado do colega sem olhá-lo, tinha a pasta com o material.
- Kuru, eu o levo para casa. - Koji.
Seguiram calados até parte do trajeto, quando Koji deixou de fazer o mesmo caminho, que contornava a quadra de Hayato, e deixou-o seguir o restante sozinho, indo para a sua casa ainda inventando uma desculpa na cabeça para chegar tão cedo. Se dissesse que estivera com Hayato, como reagiriam ser pais?
Aproximando-se de casa viu a caixa na sua calçada, começava a chover. O correio passara há horas, e ao ler a etiqueta entendeu porque a encomenda ainda estava ali. Para Oono Hayato, de Iwasaki Kazuo. Levou a caixa para dentro, não era pesada, ou muito grande. Estava curioso. Fez como se não tivesse chegado, sem se anunciar, de qualquer modo não seria recebido. Levou a caixa para cima, e ao abri-la encontrou também uma carta com a letra do remetente.
Kon’nichiwa, Oona Hayato-kun!Envio cadernos e materiais para que termine o período escolar . Gomenasai não poder comprar os livros, summimassen não enviar uma bolsa para o material.Aproveite os estudos e tenha boas notas. Iwasaki Kazuo acredita na inteligencia de Oono Hayato-kun.Cuide-se bem.
Iwasaki Kazuo.
O que Hayato achou mais curioso fora a assinatura no pé da folha, com duas peras desenhadas com lápis verde claro, quando sorriu escutou as batidas na porta e viu a mãe entrar, com as mãos nervosas e fitando apenas o chão. Depois de tomar algum folego finalmente falou, tentando um sorriso.
- Shokuji está servido, Hayato-kun. Chichi não comerá conosco hoje, está indisposto. - Haha.
- Hai, haha. Já estarei a mesa. - Hayato.
- Hai.
Quando ela saiu deixou a porta como havia encontrado, e Hayato pegou a velha bolsa de dois anos atrás para guardar o material. Estava feliz, mas sabia que teria outra refeição solitária e silenciosa, mesmo que estivesse acompanhado.
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Haha
Mãe, em modo formal.
Tadaima
'Estou em casa', dito ao chegar.
Chichi
Pai, em modo formal.
Oka
Mãe, em modo informal.
Sekai
Mundo.
Koko ni
Aqui!
Ohayo
Bom dia.
Tsuitachi
Dia.
Uwa
Uau.
Nanimonai
Nada. Coisa alguma.
De wanai
Não!
Kuru
Venha.
Shokuji
Refeição.