Na cozinha mostrara a Hayato como cortar alhos, e tirar a casca do tomate. Mas foi surpreendido quando o garoto fez de uma das cascas uma flor e deu-lhe para provar. A casca, ainda salpicada com a água, acabado de ser limpo, em contraste com os dedos tão pálidos aproximaram-se de seu rosto. O rosto de Hayato mostrava alguma expectativa de que aceitasse dar-lhe de comer, e mil pensamento passaram por Kazuo. Entendia que o menino estava confuso ainda, o que justificava suas ações. Mas não era um menino, não estava confuso, e todas as suas ações não seriam justificadas ou…
Ah… que se dane este inferno… - Kazuo.
Abocanhou a flor e as primeiras falanges dos dedos de Hayato, com sabor de tomate e alho, tão frios da água e do suco da fruta. Lisos, sem calos ou cicatrizes. Kazuo deixou-lhe tocar sua boca, sua língua. Será que já tocara a boca de alguém, de alguma garota talvez? Ou será que não imaginava, e a sua era a primeira pessoa que ele gostaria de tocar? Será que tocava a própria, quando ia dormir, imaginando como seriam outras, molhadas e aquecidas? Imaginava agora que seus lábios eram os de Koji?
A ideia alterou Kazuo totalmente, derrubando o sentimento - que inesperadamente nascia - ao chão.
- Baka. O que está fazendo? - Kazuo.
- Nunca fiz uma flor de tomate tão bonita assim no colégio. Minhas aulas de culinária são sempre ruins. Mas cozinhar aqui é… diferente da escola. É a primeira flor aceitável que fiz, quis dá-la a você, por me ajudar, já que não posso agradecer de outro modo, no momento. - Hayato.
- Baka badi. Não precisa me agradecer por nada. E a partir de agora terá ótimas notas em culinária.
Voltaram, aos poucos, ao momento anterior em que cozinhavam em parceria, aproveitando para deixar tudo pronto para o preparo do jantar. Serviram à mesa e sentaram-se um diante do outro, diferente do dia anterior e ao que Kazuo preferiu. Não saberia como se conter caso aproximasse-se mais de Hayato.
- Itadakimasu¹. - Kazuo.
- O-oi, porque agradece hoje? - Hayato.
Kazuo ergueu novamente o queixo, como quem orgulha-se de dizer algo importante.
- Agradeço hoje pela ajuda em cozinhar, e ter com quem comer.
Hayato, tímido, coçou atrás da orelha com a risada sem graça, trazendo recordações de quando era Kazuo que agia de mesmo modo.
Comeram conversando sobre filmes e livros que preferiam. Descobriram seus gostos musicais, e comidas que mais gostavam, e em seguida assistiram a um jogo de futebol que não eram seus preferidos. Kazuo bebia pouco, Hayato tinha suas frutas, e falaram mais dos seus times favoritos do que assistiram o que era transmitido.
O dono da casa decidiu que deveriam dormir mais cedo, antes que sua cabeça saísse do controle embora a desculpa tenha sido de que sairiam cedo pois a escola de Hayato era distante. O menino não o questionara, e tomou seu lugar no sofá, após comerem a sopa de inhame, que adorara. Com a comida tão quente na noite que começava a esfriar, adormeceu logo ainda que o sofá não fosse tão confortável ao seu tamanho.
Kazuo quase atrasou-se, e chamou Hayato antes mesmo de vestir-se. Comeram apressadamente e precisaram correr para alcançar o metrô que já saía da estação. Hayato sorriu ao conseguirem entrar, uma vez que poucas vezes andara de metrô com o pai, sempre no rigoroso horário, e este estava sempre vazio, diferente deste horário tão cedo. Não havia mais local para sentar-se e segurou-se à um poste.
Para não ser importunado Kazuo colocou-se atrás dele, como costumam fazer os casais, ou os pais com os filhos menores. Mas não era tão novo para ser confundido com o filho de Kazuo, e percebeu os olhares desaprovadores sobre eles. O menino olhou-se no reflexo do vidro, e acima de sua cabeça a do homem que o abrigara, seriamente olhando para o túnel, vez ou outra com os olhos movendo-se para observar as pessoas próximas a eles. Quem era este Hayato, e o que fazia este Hayato? Por que Kazuo mantinha esta postura sobre si? Poderiam ser primos, como Kazuo se referira a ele quando saíram às compras, mas…
- Kazuo-chan. - Hayato.
- Hai. - Kazuo.
- Qual o nome completo de Kazuo-chan?
- Iwasaki. Iwasaki Kazuo.
- Hai, Iwasaki Kazuo-chan.
- Hai, Oono Hayato-chan.
Kazuo desviou o olhar pela primeira vez para Hayato refletido no espelho, este ao perceber olhou os sapatos imediatamente. O que estariam fazendo ali, ele e esta criança? Desde antes não percebera Hayato querer saber um pouco mais de si, embora não importasse que soubesse dele, inocentemente. Por que agora buscava por seu nome? Por que o tratava como um igual? Seria apenas por gostar também de rapazes, ou seria outro o propósito. Bem, a estima de Hayato certamente era grande, uma vez que tentara chamar-lhe de senpai² e não permitira.
Então chan² seria o apropriado, e não gostaria de chamar-lhe também de kun², e tão pouco kohai, ofendendo-o indevidamente. Sentiu-se com raiva inesperadamente. Quem era Hiroíto para lhe chamar de Kazuo-kohai, como se fosse lixo, ou escravo, ou sua propriedade…Por Hiroíto não tinha mais Hiroshi, não tinha mais seu Hiroshi.
Ao descer do trem tomou o pulso de Hayato um pouco bruscamente, e seus passos foram mais apressados do que pudessem ser acompanhados.
- Itai³, itai, itai. Ka-chan. - Hayato.
Ao chegarem ao topo das escadas, na saída do metrô, Kazuo soltou o braço de Hayato.
- Summimassen, Hayato-chan. - Kazuo.
- Hai. Estamos atrasados? Meu colégio é por aquela rua. - Hayato.
- Saiteki. Vamos, precisa estar na escola para a primeira aula.
- Kazuo-chan fará uma boa pontuação no teste de hoje.
- Farei o meu melhor, yakusoku!
- Quando Hayato verá Kazuo-chan novamente?
- Eu não sei… Hayato-chan gostaria da amizade de Kazuo?
- Hai! Foi mais divertido este final de semana do que qualquer outro dia que eu possa me lembrar. Não me deixam fazer compras, e na cozinha sou desastroso…
- Hum… Então venho vê-lo aos sábados, e poderíamos fazer compras e cozinhar, e também jogar e ver alguns filmes.
- Honto?
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Itadakimasu¹
Obrigado pela comida.
Senpai, chan, kun²
Tratamento à pessoas mais velhas/experientes, amigo, e mais novos.
Summimassen
Desculpe.
Saiteki
Ótimo.
Yakusoku
Prometo.
Honto
Verdade.
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