O despertador foi acionado no meio da tarde, quando programava o intervalo de seus estudos. Levantou-se preguiçoso e foi preparar um café.
- Kon’nichiwa¹. Descansou um pouco? - Kazuo.
- Não. Não pude. - Hayato.
- Ãh? Ah, está com dor de cabeça e ainda enjoado, não é mesmo? Pois o nome disso é ressaca, chamada também de justiça do excesso de bebida. Me diz uma coisa. O que bebeu ontem?
- Cinco latas, só isso. Nunca imaginei que…
- Sei que não imaginou. Nunca imaginam. Me admira ter conseguido ficar de pé depois de cinco. Anda, toma um café.
Sentaram-se à mesa novamente, com as canecas de chá aquecendo às mãos. Possivelmente seria uma noite mais fria que a do dia anterior.
- Quem te vendeu as bebidas? - Kazuo.
- Ninguém.
Kazuo o olhou mais de perto, sem acreditar. Até a maioridade não era permitida a venda de álcool, e quem o fizesse estava sujeito à multa do estabelecimento.
- Como assim, ninguém? Como as conseguiu então…
- Eu… eu só entrei em uma loja. Pra reabastecer retiram as latas geladas da frente, e colocam as quentes no fundo, então eu entrei, e coloquei todas na minha mochila. Deixei o dinheiro e corri. Então…
- Então você não comprou. Tomara que não haja testemunhas, ou o dono da loja poderá ir preso. Escute, colocou-as na mochila, onde está então sua mochila?
- Eu não sei. Não a vi.
- Oi oi, como vai estudar sem o seu material?
- Não penso em voltar à escola.
Kazuo notou-o ainda deprimido pelo que acontecerá, mas não queria deixá-lo pensando naquilo por muito mais tempo, e sentar-se para tomar café não o faria pensar menos do que durante o dia. Levantou-se.
- Vamos.
- Onde?
- Vamos buscar por sua mochila, quem sabe tenha sorte…
- Já é noite, não é provável.
- Ainda assim tenho que comprar uma corda para o cache-pot, que vai me ajudar a consertar. E não vou te deixar sozinho no meu apartamento, não quero uma cena de suicídio aqui.
- Não penso em me matar.
- Não, ãh.
- Gostaria de estar morto, mas… Não me matar, acho.
- Sei. Lembre-se de que não será um estudante para sempre.
- Você parece um estudante, com todos esses livros.
Kazuo pegou a chave e logo estavam na escada.
- Você viu, não viu. Estou na faculdade.
- E mora sozinho?
- Sim.
- E os seus pais?
- Eles tiveram a obrigação de me criar, apenas. Se eles gostam de mim do jeito deles, eu só posso gostar deles do meu. Não gostaram muito de conviver comigo, então eu dei o fora.
- Quem paga as contas?
- Eu pago. Trabalho e estudo.
- Isso ocupa muito tempo do seu dia.
- É, sim. Só tenho espaço para as tarefas da faculdade no final de semana…
- Desculpe por isso. Eu vou…
- Não te mandei embora. Gostei de você.
- Eeh!
- Gostei de você como amigo. Um irmão mais novo. Não tenho muito tempo pra sair, por isso não tenho muitos amigos. Tenho 4 provas na segunda-feira, mas é bom ter você nesse final de semana.
A loja não era distante e os sinos da porta envidraçada os denunciou. Passaram pela bancada de frutas e Kazuo pegou duas maçãs. Dirigiu-se à pequena farmácia e pegou uma cartela de antitérmico com analgésico, mais duas cervejas, e por fim um carretel de barbante de plástico. Percebeu então Hayato observando algumas pêras e bananas.
- Quer alguma coisa? - Kazuo.
- Eu estou bem, obrigado. - Hayato.
- Vamos… Um garoto na sua idade precisa de energia, não é mesmo.
- É seu irmão?
A resposta da atendente surpreendeu o mais novo, mas não o mais velho. A mercearia era muito familiar e tinha atenção especial ao abuso de menores.
- Não. - Hayato.
- É o meu primo. Precisamos ir, a mãe dele o está esperando em minha casa. - Kazuo.
- Hai!
A atendente terminou de registrar a venda e Kazuo entregou para Hayato o pacote, enquanto acendia um cigarro, sem ouvir protesto por ter de carregá-la. Hayato olhava o chão, enquanto Kazuo o céu parcialmente nublado e as aves que tentavam chegar em seus ninhos antes de anoitecer.
- Nada da mochila, não é? - Kazuo.
- Eu disse. Já passou muitas pessoas, onde quer que eu a tenha deixado. Estudantes, empregados, a coleta de lixo, inclusive. - Hayato.
- É, não há muito o que se fazer. Ainda bem que eu encontrei você.
- O que isso tem haver com a mochila que perdi?
- Eu sou um estudante também. Pode pegar um dos meus cadernos, e um lápis.
- Mesmo? Arigato.
Kazuo parou de repente, e Hayato deu alguns passos mais antes de também parar e olhá-lo. Ver-lhe de olhos um pouco marejados o fez pensar ser um fracasso na tentativa de distraí-lo.
- Ainda com dor de cabeça? Tome esse comprimido.
- Não. É só que… Quem sou eu e… o que vai acontecer comigo?
Não esperava realmente uma resposta, embora alguma fosse agradável, e Kazuo não tinha alguma resposta, mesmo querendo saber o que dizer.
- Oi, você é um garoto muito legal. Um pouco confuso, mas todo mundo tem dias ruins. E você vai ficar bem, está bem? Promessa.
Kazuo passou o braço pelos pequenos ombros e Hayato ignorou quaisquer coisas, deixando a sacola cair de seus braços, e afogando o rosto no peito do amigo inesperado.
- Shishishi… vai ficar tudo bem. Pode ficar calmo. Nada de ruim vai acontecer. - Kazuo.
- Estou… Eu estou muito confuso, muito confuso. Onde vou morar? Como irei à escola agora que… Todos sabem?
- Oi. Oi, está me ouvindo?
- Sim. Sim, senhor.
- Você tem que cuidar de você! Só você importa, está ouvindo? Esqueça seus pais, e a escola! Só tem que ser você. Tudo o que é importante é você, Oono Hayato!
Ficaram assim um tempo mais, e Kazuo sabia que era preciso coragem para enfrentar o que decidisse. Se não fosse sério, não estaria tão confuso. Estaria como fora consigo, apático por ainda meses enquanto, confuso.
- Ei, Hayato. Precisamos ir. Estamos perto. - Kazuo.
- Hai.
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Kon’nichi'wa¹
Bom dia.
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